Águas cidade da hospitalidade e do bem-estar

Jorge C. Silveira Duarte[1]

Introdução

Entre os meses de setembro a dezembro de 2020 tive a oportunidade de participar do Plano Diretor de Turismo do município de Águas de São Pedro. Foi um processo de construção colaborativa entre poder público e entidades representativas do setor de turismo. Um dos itens que mereceram tempo de reflexão e diálogo entre os participantes foi a visão de futuro. Ao tratar desse tema se buscou na história da cidade e nos anseios da comunidade encontrar a essência de como a cidade quer ser vista e reconhecida. O resultado desse trabalho foi resumido na seguinte frase “ Até 2025 Águas de São Pedro se consolida como cidade Jardim e será reconhecida pela hospitalidade e o bem-estar e com as qualidades de esmerada, inovadora, humana, encantadora e saudável”. Orientado por essa visão criou-se o slogam “Águas de São Pedro: Turismo, Hospitalidade e Bem-estar à disposição”. E, um dos propósitos deste artigo foi dar embasamento ao desenvolvimento desse slogan que irá a promover o município como destino turístico.

Águas de São Pedro, que é uma cidade brasileira do estado de São Paulo, é a única Estância do país planejada e construída com a finalidade específica de ser um local de cura e lazer, garantias da qualidade de vida de seus habitantes e turistas. É o segundo menor município brasileiro em extensão territorial, 3,612 Km — o primeiro é o município de Santa Cruz de Minas/MG com 3,565 Km (IBGE)[2] — e faz somente limite de território com o município de São Pedro. Não existe indústria e nem zona rural, a cidade tem sua economia voltada exclusivamente ao turismo. Possui clima temperado, ligeiramente quente (28°C) no verão e ameno (8°C) no inverno, com dias ensolarados e noites frescas. Tem uma altitude ideal, 470 metros, sendo indicada tanto pra hipertensos como para quem tem pressão baixa.

Voltando ao tema do artigo, os conceitos de hospitalidade e bem-estar, em alguns aspectos, indicam um processo de fusão, conforme iremos identificando no texto cujo objetivo é transitar por alguns conceitos e experiências que possam trazer referências e suporte ao desenvolvimento da identidade, da marca de Águas de São Pedro.

Hospitalidade

No livro “Innover dans l´école par le desing”, Sophie Penè, trata de um conceito de hospitalidade voltado para a educação, ou seja, para alunos. Neste texto o conceito foi adaptado para turismo, ou seja, para o turista.

A autora diz que a hospitalidade tem que comunicar que a presença do turista é aguardada e desejada e nesse sentido, a hospitalidade inclui todas as iniciativas voltadas para o acolhimento e a criação de vínculos entre todas as pessoas que compõem ou se relacionam com o turista.

Afirma que a hospitalidade se expressa nas interações sociais, trocas, conversas informais e outras situações na relação com o turista sempre buscando o equilíbrio dinâmico entre horizontalidade e hierarquização de papéis e funções. Ela transparece no cuidado com os ambientes, no mobiliário, na organização e diferenciação dos espaços, na sinalização que orienta e comunica, que dá aos usuários do ambiente conforto, segurança e clareza de sua utilização, o que inclui aí, facilidade de acesso e acessibilidade, dando contornos suaves, porém efetivos, para os espaços que podem ser utilizados por todos e também para aqueles restritos, que permitem a privacidade do turista.

Complementa que, por um lado, quem acolhe deve conforto e reconforto, atenção e atenções a quem é acolhido. Por outro lado, quem é acolhido precisa conhecer, respeitar e aceitar as orientações de uso do lugar. Nós sempre retornamos ao “lugar”. Se ele não faz tudo, ele participa da implementação de um conjunto de práticas que podemos classificar como hospitaleiras, porque a hospitalidade é, ao mesmo tempo, relação social e dispositivo material.

A hospitalidade, materializada nos lugares, precisa favorecer ambientes abertos que favoreçam a interação, a conexão, o conforto. Devem ser lugares inusitados e inspiradores. Os lugares devem convidar a chegar, permanecer e a estabelecer com eles vínculos e significados.

A hospitalidade, quando comunica suas intenções de acolhimento, convívio e conexão entre as pessoas faz com que os espaços sejam o suporte e referência para vínculos significativos, gerando um poderoso sentimento de pertença. O sentimento de pertencer ao lugar contribui para a vitalidade dos ambientes e também para sua manutenção e preservação, pois deixa mais clara a mensagem de que aquele lugar que cuida, também precisa ser cuidado, pois pertence a todos, conclui a autora.

Conceito Bem-estar

Segundo Farah, o termo bem-estar aparece no século XVll vinculado à satisfação das necessidades físicas e podia ser entendida como ausência de doenças. No século XVlll passa a ser relacionado à situação material que permite satisfazer as necessidades da existência. Nesta definição há uma relação dos bens materiais ou a falta deles com a saúde.

Considerando então esses dois séculos, o bem-estar denotava estar diretamente vinculado à saúde. Sem pretendermos transitar pela evolução do conceito torna-se pertinente mencionar o que diz Organização Mundial da Saúde sobre o tema: “Saúde, estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não simplesmente à ausência de doença ou enfermidade.

É um direito fundamental, e que a consecução do mais alto nível de saúde é a mais importante meta social mundial, cuja realização requer a ação de muitos outros setores sociais e econômicos, além do setor saúde” (OMS, 1976).

Este conceito e posicionamento da OMS pode ter influenciado na temática bem-estar, que para efeitos desta proposta incorpora a questão da saúde com o propósito descrito anteriormente. Como veremos a seguir as temáticas de saúde e bem-estar, em alguns aspectos, se confundem como sendo uma mesma proposta de acordo aos autores aqui mencionados.

Voltando a Farah, afirma ele, que atualmente, o conceito está ligado à percepção da saúde nos aspectos mentais, emocionais, sociais e físicos, que podem ser definidos como:

Bem-estar mental, a capacidade de administrar sentimentos independentemente das variações e exigências externas e que é uma apropriação das próprias ações do indivíduo.

Bem-estar emocional, é o equilíbrio entre as emoções e os sentimentos, os desejos, a felicidade, a segurança e principalmente ausência de stress, que envolve a espiritualidade e o autoconhecimento.

Bem-estar social, são todas as coisas que incidem de forma positiva na qualidade de vida, englobando os recursos econômicos suficientes para satisfazer as necessidades, um lar, o acesso à saúde e à educação e ao tempo de lazer. E,

Bem-estar físico, que é uma condição global do corpo em relação às doenças e ao vigor físico, associado a um bom funcionamento do metabolismo.

Com esses aspectos em equilíbrio pode-se afirmar que a percepção do bem-estar está muito boa e por meio dessa percepção é que as pessoas interagem com as outras pessoas, declara Farah.

Para citar outras experiências, transcrevemos aqui trechos de um texto de um empreendedor que atua no ramo da hospitalidade e bem-estar e trata da incorporação ou fusão do tema hospitalidade e bem-estar.

A experiência é relatada por Ingo Schweder, da empresa Horwath HTL Health & Wellness, no artigo Relatório da Industria: bem-estar temático X bem-estar e hospitalidade.

Segundo Schweder, um verdadeiro resort mais do que um lugar para relaxar deve ser um lugar para fazer mudanças transformadoras e duradouras para toda a vida. Menciona no artigo, que para Thomas Klein, presidente do Canyon Ranch, “o aumento de doenças não transmissíveis está alimentando o crescimento da economia do bem-estar” e empresas iniciam a incorporar elementos de bem-estar nos seus produtos e serviços.

Algumas empresas buscam inserir iniciativas que integram o bem-estar na experiência do hospede, oferecendo, entre outros, fitness especialmente mobiliado, serviço de “concierge” personalizado, menus saudáveis, aulas para a busca de organização e equilíbrio do corpo e da mente e aulas de culinária. O bem-estar passa a inclinar-se para soluções de hospitalidade.

O desenvolvimento de novos empreendimentos, indicam que a referência de bem-estar não está centrada num spa ou numa academia como um espaço de atividades, mas no impacto que a própria experiência do hóspede tem sobre o seu bem-estar durante a estadia e para além dela.

Essa boa experiência passa, também, por uma boa hospitalidade e nesta prática começa a fundir-se a ideia de hospitalidade e bem-estar, afirma Schweder.

Relata que em abril de 2018 a Wellness Tourism Association (WTA) criou um glossário de termos onde chama o setor de resort de bem-estar, santuário de bem-estar ou clínica de bem-estar, às instalações, com acomodações e variedade de serviços de hospitalidade, onde o objetivo principal é fornecer programas e experiências para o bem-estar do hóspede.

Afirma também, que o resort bem-estar é composto por quatro elementos: Acomodação, Variedade de serviços de bem-estar, opções de refeições saudáveis e instalações relacionadas ao bem-estar.

Destaca que os operadores de hospitalidade de hoje são obrigados a pensar um passo à frente e que os especialistas, ao desenvolver um centro de bem-estar, devem levar em conta a escolha dos materiais, cores e texturas, uso de padrões de materiais biofílicos (materiais extraídos da natureza) e incorporá-los ao conjunto arquitetônico, criando espaços sociais que inspirem a conectividade e o engajamento das pessoas ao ambiente.

Os serviços de bem-estar oferecidos podem ser os mais variados e apresenta cinco possíveis, a saber:

  • Modalidade espiritual
  • Modelos de tratamento tradicional e auto aperfeiçoamento
  • Medicina alternativa
  • Gourmet saudável e atividades físicas ao ar livre
  • Tratamentos luxuosos para a pele, dentes e corpo

Conclusão

Os autores além de contribuir com uma conceituação, denotam uma tendência em agrupar estes termos como atividades que se complementam.

Considerando que Águas de São Pedro nasce de uma proposta de bem-estar e ao longo do tempo aprimora a hospitalidade como forma de atrair, acolher e encantar o turista, reafirmar este posicionamento e consolidá-lo como marca pode tornar a cidade uma importante referência em Hospitalidade e bem-estar no país.

Referências Bibliográficas

Pène, Sophie e vários co-autores.  Innover dans l´école par le desing. Cité du Design. Editions Canopé. 2017. Acesso disponível em: www.reseau-canope.fr/innover-dans-lecole-par-le-design

Farah, José Carlos. Jornal da USP – Entrevista a Ivani Ferreira. https://jornal.usp.br/atualidades/conceito-de-bem-estar-mudou-ao-longo-dos-anos/  Pesquisa em 20/01/20

Schweder, Ingo, Fabian Modena and Krystyna Stadnyk of the Horwath HTL Health & Wellness.  INDUSTRY REPORT: Wellness-Themed vs Wellness Hospitality, 2018


[1] Jorge C. Silveira Duarte Psicólogo, com pós-graduação em Recursos Humanos e especialização em Desenvolvimento Local pelo Centro Internacional de Formação da OIT/ONU/Itália, com  MBA em Gestão e Empreendedorismo Social pela FIA/USP e com formação em Coaching pela Jyväskylä University of Applied Sciences/Finlândia. Trabalha no Senac São Paulo desde 1997 com desenvolvimento de comunidades e planejamento municipal e regional do turismo. Criou os programas Rede Social, Desenvolvimento Local e Regionalização do Turismo.

[2] Site: https://www.ibge.gov.br/cidades-e-estados.html?view=municipio (Acessado em 10/12/2020)

2 comentários

  1. Muito bom. Voluntariamente e com a única intenção de resgatar, preservar e implementar as características que diferenciam Águas de São Pedro das demais estâncias, participei de todos os programas mencionados no texto (Rede Social, Desenvolvimento Local e Regionalização do Turismo), sempre defendendo os conceitos que, com muita alegria, vejo estampados no Plano Diretor de Turismo de Águas de São Pedro. Ao longo de muitos anos, foram inúmeras as discussões sobre os temas ora trazidos (Turismo, Hospitalidade e Bem-Estar), os quais sempre defendi, embora nem sempre tenham sido consenso dentre os participantes. Inegável admitir que tais conceitos estão para Águas de São Pedro assim como a estância está para os mesmos, sendo tal entendimento fundamental para o desenvolvimento da localidade, de forma a permitir torná-la uma referência e um destino turístico desejado por todos.

    Certa feita, durante uma palestra de Chieko Aoki, empresária do ramo hoteleiro (Rede Blue Three) e uma das empreendedoras mais reconhecidas em nível mundial, pude ouvir que o conceito de hospitalidade implantado em seus hotéis passou por três etapas distintas e consecutivas: ACOLHER (antigamente, quando íamos receber visitas, preparávamos a nossa casa deixando-a limpa e organizada; RECEBER (os visitantes, uma vez instalados no espaço limpo e organizado, se punha a manifestar suas necessidades e desejos, tipo: um copo de água, o uso de um banheiro, etc); e, por fim, o CUIDAR (a capacidade de antecipação às necessidades e desejos dos nossos visitantes, buscando conhecer antecipadamente seus perfis e oferecendo aos mesmos, de forma pró-ativa, o que eles gostariam de receber durante suas estadas. Isso, por si só, permitiu o estabelecimento e a difusão empreendedora de uma cultura dentre seus colaboradores, levando os hotéis da rede Blue Three a um reconhecido destaque no cenário mundial.

    Nessa ótica, para o bem de nossa querida estância e de seus moradores e visitantes, uma vez mais tomara, hipoteca meu apoio às iniciativas do Comtur e, tomara, o citado Plano Diretor, já tão discutido e inúmeras vezes revisto, saia enfim do papel e seja efetivamente adotado e implementado.

    Abraços.

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  2. Muito obrigado pelo comentário Adilson de Toledo Souza. Ainda que o planejamento seja a parte fundamental para orientar qualquer trabalho, colocar em prática, fazer acontecer, sair do papel é necessário. Bons planos sem execução acabam sendo frustrantes para todas as pessoas envolvidas e mesmo para aqueles que criam expectativas positivas. Faço parte do COMTUR de Águas de São Pedro e sinto que há uma pré-disposição e até “cobrança” interna de que os projetos saiam do papel e sejam executados. Alguns direcionados ao COMTUR já estão em fase de iniciar e alguns até iniciaram timidamente por conta do momento que vivemos. Temos também, acompanhado o trabalho do executivo e por meio do Secretário de Turismo, Esportes e Thermal temos tido boas respostas. na realidade queremos trabalhar juntos e somar com mais instituições da cidade, criar redes, para poder avançar com as propostas. No link DEL-Turismo, neste site, há uma proposta de implementação de algumas propostas que estão em curso. A partir de abril devemos publicar cronograma e resultados para que a comunidade aguapedrense acompanhe e participe quando for possível. O tempo dirá se as coisas saiíam do papel. Estamos entusiasmados e com força para fazer acontecer. continue acompanhando, sugeriindo e participando. Esse trabalho é de todos. Abraços

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