Cittaslow: uma revolução de gestão pública com foco na qualidade de vida e inspirada no vinho

Por [1] Rogerio Ruschel http://www.invinoviajas.blogspot.com

Entrevista exclusiva de Paolo Saturnini, criador do movimento Cittaslow, concedida ao jornalista Rogerio Ruschel em Florença, Itália. Matéria publicada originalmente em 2012 no blogue “In Vino Viajas” e disponibilizada pelo autor para este site.

Paolo Saturnini foi presidente nacional da Associazzione Cittá Del Vino, que reúne as cidades italianas produtoras de vinhos e é um especialista sobre chiantis. É autor dos livros “Vini da mangiare”, com 200 receitas de uso do vinho na culinária, e “Giallo in cucina”, sobre o uso do açafrão, em parceria com Marco Mazzoni, produtor de açafrão.

Saturnini foi prefeito de Greve in Chianti, pequena e charmosa cidade da Toscana italiana entre 1995 e 2004, re-eleito duas vezes, e em seu primeiro mandato foi mentor e primeiro presidente do Movimento Cittaslow, a mais revolucionária proposta de desenvolvimento urbano sustentável, nascida em 1999 em Greve já está sendo aplicada em 236 cidades de 30 países (novembro, 2017). As memórias sobre seu território e o Cittaslow foram registradas por ele no livro “L’armonia Del Chianti – riflessioni su una terra in bilico” (em tradução livre, “A harmonia de Chianti – reflexões sobre uma terra em equilíbrio”).

O Cittaslow, uma proposta simples e genial, nasceu numa mesa de restaurante, inspirada em uma taça de vinho, como me disse Saturnini nesta entrevista: “Tive a idéia de expandir o conceito de “lentidão” proposto pelo movimento Slow Food – focado na qualidade, integridade e prazer do que se come – para a cidade inteira, porque nas casas de Greve comemos sempre com prazer e alegria e o vinho – o mais poderoso ícone da “slow food” – é parte quotidiana de nossos hábitos alimentares.”

Com 59 anos, atualmente Saturnini é presidente honorário e presidente do Conselho Garantidor de Qualidade da organização e continua em Greve in Chianti onde é empresário do setor imobiliário, de onde sai apenas para fazer palestras sobre vinho ou sobre o Movimento Cittaslow.

Como todo bom apaixonado por vinhos, é um excelente companheiro para um jantar com vinhos chianti. Pois foi num jantar assim, de quase 3 horas, que Paolo Saturnini me recebeu, em fins de abril no restaurante La Piazza Del Vino, em Florença, na Itália, para me conceder esta entrevista exclusiva sobre a gênese e o desenvolvimento do Movimento Cittaslow.

O Movimento Cittaslow propõe a melhora da qualidade de vida dos cidadãos a partir de propostas vinculadas ao território, ao meio ambiente, ao respeito cultural e ao uso de novas tecnologias usando como “arma” o protagonismo comunitário. Simples na concepção, nasceu inspirada no Movimento Slow Food e se propaga em cidades pequenas, evitando que cometam os  mesmos erros das cidades que crescem sem controle. Como diz Saturnini, cidades pequenas devem preservar; cidades grandes precisam revolucionar – e não sabem como. O Brasil tem 5.017 municípios com menos de 50.000 habitantes e pode criar centenas de Cidades Lentas salvando do caos urbano 65,2 milhões de brasileiros. Esta reportagem procura mostrar o caminho. Veja a seguir a entrevista exclusiva com Saturnini.

Ruschel: Como nasceu a proposta de Cittaslow?

Saturnini: A idéia nasceu em 1999, logo após o Congresso Mundial do Slow Food em Orvieto, na Itália, do qual eu havia participado. Como prefeito estava preocupado para resolver um dilema: como permitir que Greve in Chianti pudesse continuar a receber cada vez mais turistas sem perder a identidade e seus valores culturais, parte fundamental do que atraía os turistas, e ao mesmo tempo compartilhar os benefícios para toda a comunidade, e não apenas para alguns poucos? E melhorar a qualidade do produto turístico, a solução de qualquer destino turístico sob pressão de volume, não era possível, porque nosso turismo já era de alta qualidade.

Foi quando tive a idéia de expandir o conceito de “lentidão” proposto pelo movimento Slow Food – focado na qualidade, integridade e prazer do que se come – para a cidade inteira. Afinal, nas casas de Greve comemos sempre com prazer e alegria e o vinho – talvez o mais poderoso ícone da “slow food” – é parte quotidiana de nossos hábitos alimentares. Na verdade, pensei inicialmente na possibilidade de estender o princípio da “lentidão” também para outras coisas além da comida, e com isso sensibilizar pessoas que ainda não tinham abraçado a causa do Slow Food. Pensei que se tivesse o apoio de prefeitos e instituições municipais que representam dezenas de milhares de homens e mulheres, poderia facilitar a implementação dos objetivos do movimento Slow Food mais rapidamente. Parecia uma boa ideia: bastava pedir aos políticos, em primeiro lugar, mas também para as pessoas da cidade como um todo, um ato de vontade: a vontade de ser parte de um projeto estratégico importante, o projeto do Slow Food.

Ruschel à esquerda e Paolo à direita da foto

Ruschel: Como são as relações da Cittaslow com o Slow Food?

Paolo: As organizações estão intimamente relacionadas, no sentido de que Cittaslow faz parte do Slow Food através de um representante nacional, e o presidente da Cittaslow faz parte do Conselho de Governadores do Slow Food na Itália.

Ruschel: Quem foram os promotores iniciais da ideia?

Paolo: O Município de Greve in Chianti, juntamente com as cidades de Orvieto, Bra, Positano e com o Movimento Slow Food.

Ruschel: Qual a ideia básica do Movimento Cittaslow?

Paolo: O objetivo é melhorar a qualidade de vida dos cidadãos a partir de propostas vinculadas ao território, ao meio ambiente, ao protagonismo comunitário e ao uso de novas tecnologias. O inimigo é o estresse, a pressão de valores não naturais, a perda de referências, a pressa. Tudo isto gera má qualidade de vida. Em pequenas comunidades como Greve in Chianti as pessoas estão vinculadas ao território: elas nascem, crescem, moram e trabalham em fazendas, casas, ruas e bairros. Conhecem cada árvore, cada casa. Vivem no território do município, um espaço que deve ser seu e que deve ser fonte de harmonia e prosperidade. E este ambiente deve ser respeitado e valorizado, e não envenenado como é a tendência no que se refere ao meio ambiente. Queremos valorizar o território e não apenas ocupá-lo.

Ruschel: E como esta “valorização do território” se manifesta na prática?

Paolo: Para aderir à rede, os municípios candidatos devem ter até 50.000 habitantes e atender a diversos compromissos, entre os quais:

  • A política de planejamento deve servir para melhorar o território, e não apenas para ocupá-lo;
  • Devem implementar uma política ambiental baseada na promoção da recuperação e reciclagem de resíduos, quando não for possível evitá-los;
  • Devem usar os avanços tecnológicos para melhorar a qualidade ambiental e de áreas urbanas;
  • Devem promover a produção e utilização de produtos alimentícios obtidos de maneira natural e ambientalmente respeitosos, excluindo os produtos transgênicos;
  • Devem entender que o fortalecimento da produção local deve estar ligada ao território: agricultores e moradores tradicionais devem preservar suas mais antigas tradições, mesmo quando é incentivado o relacionamento entre consumidores e produtores;
  • Devem implementar, quando necessário,  políticas e serviços públicos de defesa de grupos geralmente excluídos;
  • Devem promover a hospitalidade respeitosa e a convivência harmoniosa entre os moradores e turistas, sem exploração, mas com valorização;
  • Devem mobilizar e educar a consciência dos residentes e dos operadores turísticos sobre o que significa viver em uma cidade lenta e suas implicações, com especial atenção para a sensibilização dos jovens, através de planos de formação específicos.

Ruschel: Você pode dar exemplos práticos?

Paolo: Sim, posso dar alguns exemplos do que foi conquistado em Greve in Chianti. Um está relacionada ao planejamento urbano, onde, para assegurar o desenvolvimento sustentável na minha comunidade, reduzimos drásticamente a previsão de novos edifícios, tanto residenciais como para atividades produtivas. Reduzimos o limite de 250.000 metros cúbicos construtivos de leis anteriores e aprovamos um novo plano diretor que colocou em primeiro lugar o aproveitamento das áreas existentes, e apenas como último recurso, a construção de um novo edifício. Outro exemplo é o do comércio, onde, como em qualquer cidade você tem lojas com áreas de auto-atendimento, mas o morador prefere o comércio tradicional, contribuindo para a preservação de uma importante base econômica, social e cultural. Outro exemplo é o do turismo, onde, em face de forte crescimento da demanda, incentivamos o surgimento de pequenos hotéis derivados da reutilização de edifícios existentes, em vez de recorrer à construção de complexos hoteleiros de grande porte. Também associamos a qualidade e a origem de alimentos produzidos localmente à educação, educação alimentar e educação ambiental, incentivando o uso de merendas ligadas ao território e à cultura. Um último exemplo é o da paisagem agrícola, onde, com o apoio de enólogos, adotamos padrões e práticas para a criação de novos vinhedos com técnicas mais respeitosas em relação ao solo e a paisagem.

Veja a segunda parte desta entrevista e conheça Greve in Chianti no blog  O Movimento Cittaslow e Greve in Chianti

[1] Rogério Ruschel – rogerio@ruscheleassociados.com.br  – é jornalista especializado e editor da revista eletrônica “Business do Bem – Economia, Negócios e Sustentabilidade”. Ruschel viajou à Itália a convite dele mesmo.

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